Nota de pesar: Benjamin de Lacerda Júnior
Acesse aqui um texto escrito em homenagem ao professor Benjamin de Lacerda Júnior.
Sobre um crachá sem nódoas, o ritmo da timbalada e algumas fronteiras
Célia Sebastiana Silva*
Acho que morrer é assim: - Deus, me passa no pontilhão? - A pé ou no colo? - No colo. Você fecha os olhos e quando abre já passou. Não doeu... ADÉLIA PRADO
Benjamin de Lacerda Júnior não foi, para mim, apenas um colega com passagem fulgurante pelo CEPAE. Eu o conheci quando ainda era aluna da graduação em Letras na UEG e ele, professor de Geografia na mesma Unidade Cora Coralina da Cidade de Goiás. Eventualmente, viajávamos no mesmo ônibus, fazendo o trajeto Goiás–Goiânia ou Goiânia–Goiás.
Terminado o meu curso, por obra do destino e pela articulação de um amigo — também colega da UFG, o Vanilton (IESA) —, começamos a fazer uma pós-graduação lato sensu na PUC-MG, em Belo Horizonte. Novamente viajávamos juntos, hospedávamo-nos no mesmo hotel e, todos os dias, pegávamos o mesmo coletivo para a universidade. Eu era apenas uma recém-graduada, mas Benjamin, Vanilton, Elianinha e Clarinda (companheiros goianos em terras mineiras), por já serem professores universitários, recebiam uma boa bolsa da CAPES para esse curso, o PREPES, um Programa de Especialização de Professores do Ensino Superior que era muito respeitado nacionalmente. Com essa bolsa, gostavam de ir a restaurantes bacanas pela Savassi a fora e eu os acompanhava só com o salarinho de professora.
Toda essa narrativa é para falar de uma relação de amizade e companheirismo que se estabeleceu no passado e que me encheu de alegria quando descobri que o Benjamin, a quem Izabella e Jéssica se referiam como o substituto do Elson, era o mesmo que eu conhecia há tanto tempo e há tanto tempo não encontrava. É para dizer o quanto me alegrou encontrá-lo no pé da escada do CEPAE e abraçá-lo com um afeto semelhante ao de um irmão. É para dizer que eu estava me orgulhando muito de que, com todas as voltas e distâncias, ele seria o professor do meu filho (como cheguei a dizer a ele nesse nosso único e rápido reencontro).
Estive no velório dele e, sobre o seu corpo morto, estava o crachá do CEPAE, novíssimo, sem nódoas, sem o encardido característico de quem está há 30, 20, 17 (como eu), 15, 10, 5 anos ou apenas 1 ano no CEPAE. O crachá muito novo, ali sobre o seu corpo, era a metonímia da sua identidade laboral. Era a metáfora da alegria que, por unanimidade, seus familiares disseram ter sido o seu estado ao ser chamado para trabalhar no CEPAE. O Benjamin, ali com o crachá, não era só meu amigo de antanho; era um recentíssimo colega, morto antes de completar um mês de trabalho e de receber o seu primeiro salário pela UFG. O crachá no peito morto do Benjamin é, em dada medida, também uma morte simbólica nossa.
Mas e a timbalada? Ela entra aqui porque, nos anos 90, a timbalada era o ritmo mais alegre do Brasil. Além de ser novidade, era também o "chiclete" nacional. Benjamin adorava cantar e dançar a timbalada, levantando os braços de uma forma muito autoral em nossas aventuras belo-horizontinas. Mas não é só por isso. A timbalada era uma marca registrada desse ser iluminado, alegre, contagiante, diverso e intenso — muito intenso — que foi Benjamin. Sua passagem rápida pelo CEPAE traduz um quê dessa intensidade.
Tão intenso era Benjamin que, como graduado, mestre e doutor em Geografia, conhecia muito bem sobre fronteiras. Agora, a sua morte nos ensina, de forma doída, a tênue fronteira entre alegria e tristeza, chegada e partida, permanência e impermanência, vida e morte.
A todos nós que que conhecíamos bem o Benjamin e aos colegas, que sequer o viram de relance no CEPAE, pela fugacidade de sua passagem ali, talvez a sua morte tenha muito a ensinar sobre a vida — especialmente sobre a nódoa dos crachás, a timbalada e as fronteiras que nos são colocadas constantemente.
*Professora do Departamento de Língua Portuguesa do CEPAE-UFG.
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